EL PAN ALIMENTA, LA LECTURA EDUCA.
UMA CARTA A MEU NETO MÁRIO
24-05-2013 12:29Querido Mário:
Como estás? Como passaste estas férias? Bem? Espero que sim e que te sirvam como aliciante para um novo trimestre escolar de êxito absoluto.
Perguntarás pelo motivo desta insólita carta. É natural; depois de muito tempo de silêncio entre ambos, interrompido somente por alguma viagem esporádica a Zamora, há suficientes razões para que estranhes receber só agora notícias do teu avô.
Ouviste falar do amor? Há três tipos de amor que engrandecem e legitimam a existência humana: “o amor sentimental”, “o amor fraternal” e “o amor conjugal”.
O amor sentimental é a ternura que brota do coração humano à natureza. É aquele amor humilde, responsável e tolerante, que o ser humano expande aos outros: às plantas, aos animais, a tudo quanto nasça para morrer neste bonito planeta. Toda a expressão positiva, bem por palavras ou obras, que o ser humano difunda ou execute com humildade e tolerância com qualquer facção da natureza, seja ela a vida animal, a vegetal ou a mineral, é o amor sentimental.
Para mostrar-te a realidade deste tipo de amor, te poderia falar de tantos seres humanos que conformam as muitas organizações sociais espalhadas pelo mundo; de tantos seres humanos que deixam os prazeres terrenos para entregarem as suas vidas ao serviço dos outros; de tantas almas abnegadas que limitam os seus gastos ou evitam uma vida económica cómoda e de prazer, para repartir entre os mais necessitados a sua aportação económica.
Tudo aquilo que o ser humano expande com ternura, sensatez e complacência, é amor sentimental. É esse amor desinteressado, humilde e generoso que todos temos num rincão do nosso coração. Expande amor sentimental, aquele que estima, defende ou preserva a natureza de todos males que possam alterar a ordem universal, como podem ser os incêndios florestais, a contaminação dos rios, a morte do animal pela diversão e tantos outros actos de vandalismo e irresponsabilidade de gente sem cultura nem ternura.
O amor fraternal, é o mesmo sentimento que o anterior, já que sai também de um cantinho do coração humano, só que é um amor íntimo, um amor fabricado pelo tempo e as circunstancias. Assim como o amor sentimental brota do coração humano modelado pela consciência, o amor fraternal nasce e se cria com a convivência, enriquecendo a sua ternura pela necessidade, a consanguinidade, o patrocínio e o reconhecimento. Como exemplo para este tipo de amor, o encontras em ti mesmo; amas os teus pais. Por quê? Porque desde o dia do teu nascimento recebeste deles, apoio, carinho, ternura e patrocínio. Porque foram eles que conformaram a tua existência e são eles quem reconhecem a tua existência. Expandes amor aos teus pais, precisamente por isso; pela gratidão ao seu incondicional amor até ti e porque te sentes querido por eles.
O amor conjugal é distinto dos anteriores tipos. Nasce e se fortalece com a convivência, mas ao contrário dos anteriores , com o interesse expresso no prazer e a salvaguarda. O amor sentimental é fruto da consciência, o amor fraternal, do reconhecimento consanguíneo, por quanto o amor conjugal é o sentimento do desejo sensual apoiado pela necessidade da cada um do casal., o prazer carnal e no menor dos casos, pelo Divino mistério da procriação.
Dentro de estes três casos de amor, a união entre avô e neto, ocupa o segundo lugar, o amor por consanguinidade. Eu, teu avô, amei e amo loucamente a tua avó graças aos muitos anos que convivemos ambos, pela nossa mútua necessidade de companhia, pela felicidade que ambos sentíamos convivendo em harmonia, e como não, pela Divina Procriação de donde brotaste tu; fruto do amor conjugal entre ambos.
Falo-te de tudo isto, para justificar-me como pai da tua mãe, ou seja, teu avô. Tenho imensa pena não ter uma maior relação humana contigo, aconselhar-te nos momentos mais difíceis da tua vida, estar ao teu lado no momento preciso, convencer-te de que no meu coração há um montão de ternura e carinho para ti.
Gostava como ocorreu-me com a minha avó, encontrar-me contigo todas as noites antes de que foras à cama, para contar-te algum conto mágico, para dar-te a conhecer a dura, mas maravilhosa história de amor dos teus avôs, para recordar-te a maravilhosa infância da tua mãe, para ensinar-te como o mágico amor de um avô, não tem supremacia.
Agora, que vais sendo mais homem, que vais conhecendo o rigores da vida e valorizando os sacrifícios dos teus progenitores, abre a tua mente ao mundo mágico e com os olhos fechados, imagina-te com o teu avô na margem de um caudaloso rio, pescando.
Enquanto pescamos, o teu avô está contando-te os episódios mais relevantes da sua vida e a tua atenção é tão grande, que não te dás conta que um peixe te puxa a cana.
-“Mário!... Que te estão picando!...”- Te gritei. – “Deixa avô.” Me disseste sem te preocupares com o peixe que se escapava, mantendo os teus olhos fechados e mui tenso, parecendo estares hipnotizado, “-estou a gostar do que me fala.- “
E contei-te muitos contos, muitas histórias de amor, relatos familiares, viagens ao infinito, belos sonhos de poder, de humildade e de prazer, odisseias familiares e de viagens pelo Cosmos da fantasia. E com os meus contos, as minhas narrativas, o peixe que tinhas pescado se soltou e se perdeu entre as turbulentas águas do rio, mas tu não te enfureceste pelo facto, te sentias feliz com as histórias do teu avô. Te divertias sonhando, aprendias a sonhar com o teu avô.
Te vais fazendo mais homem e vais deixando a inocência que te proporcionou e ainda te proporciona a felicidade incondicional. Essa felicidade que vives agora condicionado pela tua inocência infantil. Já valorizas os teus actos mas não os assumes; são os teus pais quem tem o dever de abri-los ante o teu olhar, para que a tua consciência vá ganhando destreza suficiente para num determinado momento poder expandir o amor que levas dentro, da forma mais correcta e mais humana possível.
Hoje te falei de amor, mas na próxima carta, te falarei da fantasia; da vida fantástica, dos sonhos impossíveis, das viagens ao fictício, do mistério da vida e da morte. Não te assustes querido, conhecer a realidade da vida, é superar em grande parte as suas duras exigências; viver em alguns momentos da nossa vida num mundo de fantasia, é voar pelo universo arrastado pelo ténue vento primaveril em busca do sossego espiritual tão necessitado pelos seres humanos.
Por hoje é tudo, querido Mário. Espero que não te tenhas aborrecido com a minha dilatada carta, mas prometi a mim mesmo, que em pouco tempo enviar-te-ei uma carta com o meu carinho e os meus pensamentos, para que não se apague a minha imagem com o passar do tempo na tua juvenil mente.
Procura guardar os meus manuscritos, para que em qualquer momento da tua vida, recordes com amor e nostalgia o avô da tua vida; e recorda Mário: a vida é uma avenida muito comprida e com muitas saídas, com muitos buracos, muitas trampas, mas também com muitos oásis e compensações. Segue a avenida da tua vida sempre com a cabeça levantada, com orgulho daquilo que foste, fizeste e do que queres ser, com a ilusão de chegar a ser pai e avô, simples e nobre, feliz e sensato, vencedor e vencido.
Procura meu filho, ser feliz com os teus ideais, sentir orgulho de ti mesmo, amar os outros como te amas a ti mesmo, sentir a dor dos outros como se fosse tua e sobre todas as coisas, procura ser tu mesmo cuidando sempre dos teus nobres ideais.
Se assim o fizeres, todos aqueles que te queremos, nos sentiremos muito orgulhosos de ti.
Com o desejo de que sejas para sempre protegido pela graça de Deus Todo Poderoso, um grande e carinhoso beijo do teu avô que te quer,
Mário Gonçalves
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